Valdomiro
era um cinquentão solitário que não acreditava
que um dia voltaria a amar alguém, pensava
que paixão era coisa de
jovens, que naquela idade não teria tempo nem paciência
para namorar, sem mencionar que ele era viúvo
e aposentado, com os filhos todos encaminhados
e vivia com total liberdade e independência.
Mas Val, como era chamado pelos poucos amigos, sentia-se solitário
e foi aconselhado a fazer uma viagem, conhecer novos lugares
e procurar divertir-se um pouco.
Seguindo
este conselho, Valdomiro desceu no Aeroporto
de Orly, em Paris, para uma permanência de duas
semanas com todas as despesas pagas, levando apenas trezentos
euros no bolso para algumas compras e lembranças.
Ao procurar sua bagagem percebeu que sua mala
não estava na esteira, foi reclamar no balcão
da companhia onde lhe informaram que sua bagagem havia
sido desviada para Frankfurt, na alemanha, para onde o
avião havia seguido viagem, e seria entregue
em seu hotel em 24 horas. Já nervoso e desanimado,
Val seguiu para o hotel onde apresentou o vaucher
da agência de viagens e, para sua completa surpresa, o
mesmo não foi aceito. Procurou pelo gerente do hotel
e este lhe explicou que aquela
agência de viagens estava falida e há
meses não honrava seus compromissos, motivo
pelo qual seus vauchers não eram mais aceitos.
Instruído
pelo gerente do hotel Valdomiro foi procurar a filial
da agência de viagens em Paris, onde foi atendido por
Amélia, uma simpática brasileira de
quarenta e cinco anos, que procurou acalmá-lo
dizendo que tentaria amenizar sua situação
conseguindo-lhe hospedagem em um bom hotel, enquanto isto tentaria
resolver a situação com a agência. Ela deixou
bem claro que não acreditava que seu problema pudesse
ser totalmente resolvido em Paris.
Amélia,
que era divorciada e morava há quinze anos em Paris,
levou Valdomiro em seu carro até o hotel e hospedou-o
ali pagando a conta com o cartão de crédito
da empresa, dizendo que como todos os passeios haviam
sido cancelados ela passaria no dia seguinte no hotel para discutirem
as opções existentes. Val nada disse, apenas
acenou afirmativamente com a cabeça e subiu para seu
quarto. Ele não quis dizer nada, mas havia ficado
impressionado com a beleza, a simpatia e a inteligência
de Amélia, que poderia simplesmente tê-lo
despachado da agência, afinal o problema não era
dela.
Antes
de deitar-se Valdomiro aproximou-se
da janela e, observando a cidade luz, pensou
que a situação não estava tão má,
estava hospedado no Novotel Tour Eiffel, na Quai de
Grenelle, às margens do Rio Sena. A
cidade era belíssima e a companhia
de Amélia era uma surpresa que o deixava a cada minuto
mais intrigado. Na manhã seguinte, após
tomar o café, Valdomiro preparava-se para um passeio
a pé pela cidade quando encontrou Amélia
que o aguardava sorrindo no saguão e disse-lhe
que aproveitaria o fechamento definitivo da filial de Paris
para levá-lo para conhecer o Museu do Louvre.
Val agradeceu encantado.
Passeando
pela galeria de pinturas do renascimento italiano,
Valdomiro e Amélia conversavam como se
já se conhecessem há muitos
anos, ele agradeceu-lhe por sua generosidade e perguntou-lhe,
temendo quebrar o encanto daqueles momentos, se
aceitaria almoçar em sua companhia.
Para sua surpresa e alegria Amélia
aceitou e eles foram até o Café Les
Deux Magots na Place Saint Germain des
Prés, um dos mais conhecidos restaurantes
de Paris. Ao sentarem nas poltronas estofadas e revestidas
em couro claro ambos já sabiam que
algo novo e maravilhoso estava acontecendo entre eles.
Valdomiro,
sentindo-se fortemente atraído por Amélia,
resolveu que ali seria o lugar ideal para declarar-se
e esperou que o vinho fosse servido para tocar
no assunto. Disse-lhe que era um homem livre,
que até há alguns dias não acreditava que
pudesse apaixonar-se novamente, mas que estava gostando muito
de sua companhia e que gostaria de desfrutá-la
até o término de sua viagem. Amélia
sorriu suavemente e disse, para alívio
de Valdomiro, que também estava feliz
com sua companhia e como agora estava desempregada
gostaria de passar as próximas duas semanas
ao seu lado.
Naquela
noite Val recuperou sua bagagem o que lhe
trouxe grande alívio, pois já estava pensando
em comprar roupas para sair com Amélia, que ele já
chamava de Mel. Nos próximos dias eles visitaram
as principais atrações de Paris entre longos beijos
e juras de amor, ambos declararam que nunca haviam sido
tão felizes em suas vidas. Passear com quem se ama pelas
alamedas do Palácio de Versalhes, decoradas com milhares
de árvores, flores, fontes e esculturas é algo
que não se esquece jamais.
Naquela
noite, após o jantar, Val convidou Mel para subir
até seu apartamento no hotel para tomar um vinho,
eles dispensaram o uso de palavras e se comunicaram apenas pela
linguagem do olhar, dos beijos e dos corpos entrelaçando-se
em um longo ato de amor que começou como
um carinho e foi transformando-se, irresistívelmente,
em uma relação intensa, frenética e extremamente
prazeirosa. O ato sexual uniu-os mais do que
nunca. Quando descansavam recostados no o sofá
e admirando a paisagem Parisiense através da janela,
Val disse-lhe, bem baixinho: eu te amo. Mel respondeu-lhe:
não mais do que eu te amo.
A
cada novo dia eles sentiam que haviam sido feitos um para o
outro, Valdomiro sentia-se surpreso, nunca estivera tão
apaixonado e nunca fora tão feliz em toda a sua
vida, era como se houvesse nascido novamente,
sentia-se inundado pela alegria
de viver. Amélia, que a princípio
aproximou-se de Val apenas por sentir-se
responsável por seu infortúnio e, talvez, por
sentir pena dele, agora sentia-se em uma encruzilhada.
Por um lado estava totalmente apaixonada
por ele e por outro não conseguia ver um futuro para
a relação, pois Val deveria retornar para
sua casa depois de amanhã. O que fazer? Que decisão
tomar?
Embalado
pelo romântismo da capital francesa, o casal
escolheu uma calçada nas margens do Rio Sena, nas
proximidades da Ile de La Cité, para fazer seu último
passeio juntos, no dia seguinte Valdomiro
regressaria ao Brasil. Este, ao contrário dos
demais, foi um passeio triste, eles caminhavam abraçados
sem conseguirem dizer uma só palavra, a separação
era impensável naquele momento, mas eles mudariam suas
vidas para continuarem juntos?
Mel
repentinamente revelou que conseguira um bom emprego em outra
agência de viagens e que não pretendia retornar
ao Brasil. Val sentiu como se aquela frase fosse
uma sentença, decretando a separação do
casal. Ele esperava que ela estivesse disposta a voltar com
ele para sua pátria. Naquela noite o silêncio cobriu
o casal como uma manta densa e pesada, sentindo
um nó na garganta eles não conseguiam pronunciar
uma única palavra.
No
dia seguinte Amélia levou Valdomiro em
seu carro até o Aeroporto de
Orly e acompanhou-o até o portão de embarque,
onde beijaram-se longamente e prometeram que aquela linda
história de amor não teria fim naquela noite
sufocante de verão. Val embarcou como um condenado que
se dirige à sua cela para cumprir sua longa
sentença. Ele só tinha certeza de uma coisa: caberia
a ele a decisão de mudar sua vida.
Amélia
entregou-se com afinco ao trabalho na nova
agência de viagens, precisava mostrar competência
e distrair sua mente, sua vontade era
pegar um avião naquele momento e ir
encontrar Valdomiro, tinha certeza que seriam felizes
para sempre, se pudessem ficar juntos. Paris ficara sem
graça sem a presença dele,
os meses se passaram e ela nunca mais passeara no Bois de Vincennes
ou no Jardim das Tulherias, sentia-se triste e solitária.
Valdomiro
assim que chegou ao Brasil percebeu que não
poderia mais ser feliz longe de Amélia, que precisaria
mudar-se definitivamente para Paris se quizesse voltar
a experimentar a felicidade que sentira naqueles dias
que lá passara. Passaram-se três mêses
até que Val conseguisse organizar sua mudança
para a capital francesa. Pensamentos conflitantes atormentavam-no,
que garantia ele tinha de que eles seriam felizes casados? E
se ela já tivesse arrumado outro namorado? Cercando-se
de toda a coragem que possuía Val embarcou
ansioso e cheio de dúvidas. Mas as
dúvidas dissiparam-se quando ele avistou a Torre Eifel,
ele estava certo, eles se amavam demais
e seriam muito felizes.
Com
este pensamento na cabeça Valdomiro comprou um lindo
bouquet de rosas vermelhas e foi ao encontro de sua amada. Como
não poderia deixar de ser, ela aceitou seu pedido, eles
se casaram na Basílica de Sacre Coeur, em
Montmartre, e suas vidas se transformaram em
uma sucessão de dias e noites felizes numa das
mais belas cidades do mundo.
Heleno Costa
(Pseudônimo de Lupércio Mundim)
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